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Archive for the ‘A escola que há de nos salvar’ Category

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domingos_pellegrini

A Educação é o nó que outros nós deslindará, para, com cidadania, exigirmos, por exemplo, Justiça melhor que esse enrolado monstro que temos, injusta pela própria lerdeza e corrupta pela própria estrutura. Em seminário na Fiep (Federação das Indústrias do Paraná) apresentei as seguintes propostas para uma nova Educação.

Vocação

Vestibular vocacionado, para evitar o absurdo de jovens com vocação para Ciências Humanas terem de estudar intensivamente Ciências Exatas, ou vice-versa, para depois esquecer totalmente. Para isso, o encaminhamento vocacional deve ser estimulado já desde o começo do Segundo Grau. E, se no final o jovem ainda estiver indeciso, que espere até ter clareza sobre a vocação. Afinal, com o mercado de trabalho saturado, para que se formar tão jovem? Melhor ganhar experiência com trabalhos temporários, cursos alternativos e tudo mais que possa enriquecer a qualificação, pois hoje diploma é apenas pré-requisito. As habilidades de relacionamento, a inteligência emocional, a iniciativa, as línguas, a liderança, a disciplina, os valores, são o que importam.

Visão

Para a primeira proposta funcionar, claro que o ensino médio tem de ser todo reformulado, com um currículo focando objetivamente a vida. Para que estudar raiz quadrada e raiz cúbica? Para que saber seno e co-seno? De Matemática, o que precisamos são as quatro operações, a regra de três, alguma geometria, um pouco de álgebra só para exercitar o cérebro. Depois, se forem para cursos de profissões que exijam Matemática, que se estudem então o que for necessário. O que vemos é um ensino médio com um currículo beletrista e enciclopedista, focando o conhecimento como um leque que se abre inutilmente para tudo, em vez de focar-se na vida.

Algumas escolas particulares já despertaram para o empreendedorismo, por exemplo. Mas a Geografia, outro exemplo, continua sendo ensinada como descrição do mundo, em vez de uma das formas de interpretação do mundo, podendo até ser conduzida turisticamente, de forma virtual, por um professor criativo e apaixonado. A História, então, quando se limita a decoreba de façanhas e heróis, é uma chatice. Quando passa a revelar e iluminar as mudanças da Humanidade ao longo dos séculos, fica fascinante. Mas é claro que, para isso, o professor não deverá começar sua aula sobre a Idade Média dizendo “hoje vamos estudar a Idade Média”, mas sim “imaginem levantar de manhã com medo do mundo acabar no dia seguinte, medo da bruxa vizinha, e com raiva porque a irmã vai casar e o barão do castelo terá direito a dormir a primeira noite com ela antes mesmo do noivo…”.

Paixão

Claro que, para isso, é preciso professores apaixonados. Guardo com veneração um caderno de desenhos de anatomia, que cultivei durante um ano, graças à paixão insuflada por um professor apaixonado das então Ciências Naturais. Não sei seu nome, porque nós o chamávamos pelo apelido Ptialina (saliva, pois ele falava lançando perdigotos). Na primeira aula ele nos falava do coração, de tal forma que a gente saía da aula sentindo o mundo bater em sístole e diástole como um imenso coração. E pedia para que trouxéssemos qualquer coisa viva ou recém colhida para a próxima aula, animal ou vegetal. Levávamos legumes, frutas, e sapos, minhocas, lesmas – com que ele se deliciava, dissecando, montando lâminas para exame miscroscópico, nos envolvendo no mundo da biologia a partir de bichos e plantas da nossa vida.

Redondação

Suas aulas eram num laboratório que parecia uma pequena igreja escura, com as cortinas fechadas, o esqueleto lá no fundo (em cuja boca botávamos sempre um cigarro, e ele não se importava nada), cartazes pelas paredes, e na frente uma grande mesa de granito com pia, estufas, fogareiro, microscópios. A gente sentava em semicírculo, bem juntinhos, para ficar mais perto dele. E a palavra rodava. Ele fazia perguntas e deixava a gente falar, mesmo que fosse bobagem para rir e depois, de alma leve, começar a conhecer o que ele queria nos revelar. Não ensinava, revelava.

Nossas escolas obedecem a um modelo quadrado, da arquitetura à pedagogia, com salas quadradas com carteiras enfileiradas, onde o que os alunos mais vêem é a nuca do aluno da frente, todos diante do professor falando unilateralmente como dono do conhecimento, falando para ser ouvido. E por isso cada vez menos alunos querem ouvir, reinando a indisciplina. Numa escola redonda, o professor deve também ouvir, até para poder estimular e envolver. E a palavra deve rodar, em debates sobre os assuntos, pois assunto que não dá debate não merece ser estudado. Por que saber que a hipófise fica na sela túrsica do esfenóide? Mas que interessante saber que a hipófise é uma glândula que produz os hormônios que nos movem na paixão. O primeiro amor nasce na hipófise! A partir daí, a hipófise é uma amiga a conhecer, não uma chatice a decorar.

A imagem de Jesus taí porque ele é um mestre que falou da vida, sem teoria, nem deixou nada escrito, e só pregou ao ar livre. No ano da pregação, suas caminhadas formavam círculos cada vez maiores, como quem joga uma rede cada vez mais longe. No ano da perseguição, suas caminhadas passaram a ser retas, de um ponto a outro, fugindo dos espiões e detratores. Para fugir das retas e chegar à Escola Redonda, teremos de penar, carregar uma cruz de castigos e esforços, mas é o caminho. Depois renasceremos.

Domingos Pellegrini

Gazeta do Povo, 09 de abril de 2006.

DICA: Blog de Domingos Pellegrini

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