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Archive for the ‘Como e por que ler a poesia do século XX’ Category

Ler poesia com alunos do ensino fundamental e ensino médio é uma atividade que nem sempre flui de forma natural como consequência das aulas de Literatura. Para auxiliar o trabalho do professor de Português é que selecionei o texto abaixo de Ítalo Moriconi.

A palavra poesia apresenta certa flutuação de sentidos. Para alguns, soa ameaçadora, sugerindo ou lembrando exercícios difíceis dos tempos de escola. No universo literário, é tida como a mais refinada as paixões. Em princípio, imagina-se que poetas, assim como leitores de poesia, sejam indivíduos singulares, atacados por uma espécie de mania, dizem que hoje rara e inatual: a mania de ler literatura, mania de cultivar as letras. Cultivar as letras é querer saber das coisas, é cultivar o intelecto, a força de entendimento. A quem deseja enveredar por esse caminho, recomenda-se: leia os bons romances, descubra os filósofos sérios, aprenda a amar poesia. Na cama, na rede. Na poltrona, na mesa de trabalho. Sempre foi assim. É como nasce a tribo dos letrados.

Os romances nos permitem viajar sem sair de onde estamos. Não apenas a lugares estranhos, próximos ou distantes. Mas viajar pelo outro, por nós mesmos, da maneira intensa e interiorizada que só o texto escrito pode oferecer. A filosofia é ginástica para o cérebro: nos ensina a pensar, quase por osmose. Ensina a indagar sobre o real significado das palavras. Entender parágrafos dos filósofos importantes é habilitar-se a entender qualquer outro tipo de parágrafo. Entender não apenas a informação que o parágrafo contém, mas o conceito que o sustenta.

Para a tribo dos leitores, a poesia traz sobretudo promessa de prazer. É gostoso ler poesia. Para alguns, é até mais gostoso que ler romance. Por certo, é mais gostoso que filosofia. Poesia respira, joga com pausas, alterna silêncios e frases ( os versos). Poesia é bonito na página, é festa tipográfica. Festa para os olhos. Ritmo visual que vira sonoro, quando lemos o poema em voz alta. Imaginação e sabedoria combinadas numa certa vertigem, a velocidade das estrofes. Linguagem concentrada que, no entanto, pode distender-se estender-se. Todos os cinco sentidos traduzidos, pôr meio da palavra, em coisa mental. Coisa mental que se pode comunicar pela fala, guardar na página ou na memória, que nem talismã.

Toda linguagem tem seu quê de poesia. Mas a poesia é onde o “quê” da linguagem está maisem pauta. Apoesia brinca com a linguagem. Chama atenção para possibilidades de sentido. Explora significativamente coincidências sonoras entre palavras. Fabrica identidades por analogia, através de imagens ou metáforas: mulher é flor, rapaz é rocha, amor é tocha. Nuvem é pluma. Pedra é sono.

Ocorre que a palavra poesia abrange sentidos que vão além da linguagem verbal, oral ou escrita. Ela também se refere a um universo muito mais amplo e menos exclusivo ou especializado que o do livro e da leitura. É o lado aquém-livro da poesia. Que tem a ver com o universo da cultura, tem a ver com o ar que nos envolve. Um filme pode ter poesia. Um gesto, comum ou excepcional, pode ter poesia. A poesia está no ar. A poesia é popular. Se mulher é flor, a poesia está na boca do povo, vem da boca do povo. Espera-se que a poesia enquanto arte específica das palavras de algum modo revele ou esteja articulada com essa poesia além-livro, essa poesia da vida.

Aliás, a poesia da vida pode ser bem rude. Nem sempre, ou quase nunca, confunde-se com romantismos, delicadezas, águas-de-cheiro. Descobrir a poesia da vida tem mais a ver com o realismo que com idealismos de Polyanna. Brutalidade jardim. Por outro lado, aquilo que consideramos “m poéticos” na vida está menos na própria vida que nas convenções de linguagem, de pensamento e sentimentos que nos regem enquanto seres sociais. A realidade, tal como a conhecemos, é produto dinâmico da linguagem humana e não vice-versa. Este é um princípio filosófico fundamental na civilização moderna.

O mundo é um ato de criação poética. Nós todos o herdamos, compartilhamos, interferindo nesse ato. Só percebemos a existência daquilo que nomeamos. Interferimos mesmo que não queiramos. Interferimos em qualquer perspectiva. Seja como religiosos ou místicos, devotos de um ou de muitos deuses. Seja como céticos, devotos da ciência, conformados ao fato de estarmos limitados ao apenas humano, demasiadamente humano.

O poema, ao ser lido sobre a página, ou ouvido com atenção, aproxima o leitor do poeta. Todo leitor ou leitora de poesia é um pouco poeta também, mesmo que não profissional. O ato criador do poema sobre a linguagem evoca a criação poética do mundo implícita na própria existência dela, linguagem, que é de todos. Por isso a leitura do poema ativa o poeta que somos, o criador ou a criadora que somos, nesse sentido amplo da palavra. Daí por que a poesia pode tanto para ser decorada. Mesmo no caso de poemas mais longos, somos levados a memorizar os trechos que mais amamos. Quando o poeta e a poeta profissionais escrevem um poema, sonham em transformá-lo em parte integrante da intimidade psíquica de seus leitores. Como disse o poeta anglo-americano T. S. Eliot, a leitura é em si uma experiência de vida. Somos feitos daquilo que vivemos e daquilo que lemos.

(…)

Texto retirado do livro – Como e por que ler a poesia brasileira do século XX.

MORICONI, Ítalo. Como e por que ler a poesia brasileira do século XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002
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